Fotografia de Carol Zatorre

Carol Zatorre

Head de Pesquisa na Kyvo.

Consultoria, pesquisa qualitativa e pesquisa na sprint.

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O segundo podcast da nova temporada é uma conversa descontraída e didática com a Carol Zatorre, head de pesquisa na Kyvo - consultoria que entrega inovação por meio do design. Ela tem formação em Antropologia e uma perspectiva interessante sobre UX Research.

O episódio traz um panorama das etapas de projeto de pesquisa qualitativa (planejamento, moderação e análise), incluindo dicas para você tirar as hipóteses do papel e ir para a rua investigar.

Falamos sobre o dia a dia de pesquisa em consultoria, como fazer pesquisa na sprint, diferença entre empatia e alteridade e muito mais!

"...a alteridade dá direito do indivíduo que está sendo pesquisado falar. A empatia dá direito do pesquisador dizer a respeito do outro. Essa para mim é a principal dificuldade com a empatia."
Dinâmicas na casa de participantes da pesquisa.

E quando falamos sobre planejamento de amostra, a Carol nos enviou essa foto:

Exemplo de perfis extremos na amostra.

Os links sobre os quais falamos são:

As dicas que ela deixou para ampliar os conhecimentos em pesquisa são:

E as novidades continuam por aqui: estamos bastante empolgados em contar que o TESTR é o apoiador deste episódio! Como vocês ouviram neste papo, uma das barreiras mais comuns para fazer pesquisa em ambiente ágil é o tempo. E é exatamente esse o problema que o TESTR resolve: entrega todo o processo de teste com usuários de forma automatizada - incluindo recrutamento, execução, recompensa aos participantes e relatório com resultados, em uma média de 48 horas.

E quem acompanha o Movimento UX tem a vantagem de ganhar 3 participantes extras na contratação de qualquer plano. É só acessar aqui :) Agora você não tem mais desculpa pra dizer que não dá pra rodar pesquisa dentro da sprint, hein?!

As trilhas deste episódio são parte do projeto Aeoner do produtor Richard Garrell. As faixas sampleam sons 8 bits, discos de vinil, fitas cassete e gravações de campo feitas no Japão. Você pode ouvir todo o álbum aqui.

Até o próximo :)

[Música]

Izabela: Olá! Tá começando mais um episódio da nova temporada do Movimento UX.

A convidada de hoje é a Carol Zatorre, Head de Pesquisa na Kyvo. Ela tem formação em antropologia e uma perspectiva bem interessante sobre UX Research.

Esse episódio traz um panorama das etapas de projeto de pesquisa qualitativa, incluindo dicas para você tirar as hipóteses do papel e ir para a rua investigar.

Também falamos sobre o dia a dia de pesquisa em consultoria de design e inovação, como fazer pesquisa na sprint, diferença entre empatia e alteridade e muito mais!

E as novidades continuam por aqui: estamos bastante empolgados em contar que o TESTR é o apoiador deste episódio!

Como você vai ouvir, uma das barreiras mais comuns para fazer pesquisa em ambiente ágil é o tempo. E esse é exatamente o problema que o TESTR resolve: entrega todo o processo de teste com usuários de forma automatizada - incluindo recrutamento, execução, recompensa aos participantes e também relatório com resultados, em uma média de 48 horas.

E o mais legal é que quem acompanha o Movimento UX tem a vantagem de ganhar três participantes extras na contratação de qualquer plano. É só acessar aqui Agora você não tem mais desculpa para dizer que não dá pra rodar pesquisa dentro da sprint, hein?!

E seguindo a linha do episódio anterior, as trilhas usadas neste podcast são de produtores brasileiros de música eletrônica. Essas faixas que estão no início e no fim do episódio são parte do projeto Aeoner do produtor Richard Garrell. As faixas sampleiam sons 8 bits, discos de vinil, fitas cassete e gravações de campo feitas no Japão. As informações e links deste projeto, assim como as do TESTR estão no movimentoux.com.

E o último aviso bem rápido: essa gravação foi feita via internet em plena véspera de réveillon e em dia de chuva mas nada que te impeça de ouvir.

Então vamos lá… Eu sou a Izabela de Fátima e essa é a segunda temporada do Movimento UX.


Izabela: Oi, Carol. Tudo bom?

Carol: Olá, tudo bem. Bom dia.

Izabela: Bom dia. Muito obrigada pelo seu tempo nesse dia 31 de dezembro e pela presença aqui no Movimento UX. Tem muito tempo que eu quero gravar com você e agora chegou a hora.

Carol: Eu que agradeço, sou uma fã.

Izabela: Sua formação é em Antropologia. Como que você começou a trabalhar com pesquisa para design?

Carol: Eu estava no final da minha formação e fui convidada por um amigo para dar uma olhada em nas pesquisas que o núcleo de design e sustentabilidade da Federal do Paraná estava desenvolvendo na época para a Whirlpool. Ele já tinha tentado contato com o departamento de antropologia por várias vezes e não tinha conseguido. Ele pediu meio que na camaradagem, tipo: Carol, quer dar uma olhada lá pra ver se a gente está indo pelo caminho certo, se é isso mesmo ou se não é. Eu precisava ter um pouco mais de referência porque a gente não aprende pesquisa na nossa formação. Eu fui e, chegando lá, vi que tinha muita coisa estranha. Eles estavam usando sondas culturais, mas mesmo assim tinham alguns problemas de metodologia de pesquisa, de como estava formatada a pesquisa, as perguntas. Para mim é estranho porque desde sempre o design usa o problema e nós das ciências sociais costumamos olhar o fenômeno a ser observado, então para mim isso sempre foi uma coisa estranha. O problema é que as pessoas usam pouco orelhão, vou pegar esse exemplo. A gente costuma olhar qual é o fenômeno de falar por telefone, então a gente inverte o olhar da pergunta. Eu já achava algumas coisas estranhas quando ele formatou essa pesquisa. Aí eu trabalhei com ele em dois projetos, neste da Whirlpool, e no outro projeto e a partir disso comecei a me embrenhar nesse universo. Logo na sequência o Érico já tinha tentado com duas professoras de pesquisa para dar matéria de pesquisa na pós-graduação e não tinha funcionado muito bem porque elas eram muito acadêmicas, e aí foi o meu vamos testar você que tem uma linguagem menos acadêmica. Só que não queria trabalhar com ele, obviamente, e aí comecei a trabalhar e pegar projetos meio que freelando nessa área.

Izabela: Legal. Queria entender um pouco mais o contexto da sua decisão de seguir esse caminho de pesquisa para design porque a gente tem diversos tipos de pesquisa: tem a pesquisa para a comunicação, tem pesquisa para mercado, pesquisa para design. Eu queria saber por que você decidiu seguir esse caminho?

Carol: Eu sempre fui muito híbrida. Na Federal do Paraná cursos são divididos entre o 9º andar, onde fica a Sociologia, e o 6º andar, onde ficam Antropologia. E toda a formação de um cientista social é nas três áreas Antropologia, Sociologia e Ciência Política, então a gente faz matérias desses cursos todos o tempo todo. Eu ficava entre o 9ª e o 6º, e entre eles tem o andar do Design. Eu vivia parando em matérias lá, eu fazia fotografia, fazia história do design, fazia metodologia visual. Eu sempre estava embrenhada com design de alguma forma, nunca fiquei só nas minhas matérias. Durante o meu próprio desenvolvimento na universidade eu questionava muito sobre isso. Por que a gente não pode ter matérias mais práticas? Por que não ter matérias mais voltadas a outros tipos de pesquisas, não só pesquisa acadêmica? Eu era uma uma criatura muito angustiada com a pesquisa acadêmica pura e simples. Esse foi um fator decisivo pra eu ir para outras áreas. No fim das contas eu comecei a me interessar por uma atividade um pouco mais de fazer, olhar a coisa sair do papel e não ficar só no teórico, só na discussão textual, na discussão teórica da coisa. Isso me interessava muito. Aí os primeiros projetos que eu fui fazer eu peguei baixa renda, então eu fiquei apaixonada, é nesse lugar que eu quero trabalhar.

Izabela: Que legal ouvir isso, muito legal. Você tocou em um ponto que eu ando pensando muito. A gente está em uma área do mercado na qual a ação é muito valorizada, a gente mostrar como aquilo vai ser feito. É um desafio para quem trabalha com pesquisa conseguir transformar os aprendizados em acionáveis.

Carol: Isso é legal porque durante a minha formação eu tive aulas de didática. Eu até estava discutindo umas duas semanas atrás com uma professora amiga da Federal e a gente estava falando de didática. Eu fui pedir para ela orientação de alguns autores para eu ler um pouco mais sobre didática porque isso me interessa. Eu enxergo uma das nossas entregas como uma forma didática de entrega.

Izabela: Hoje você é Head de Design na Kyvo. Se eu não soubesse o que é a Kyvo, como que você me explicaria?

Carol: Eu estou na Kyvo desde a fundação, eu consigo definir Kyvo como um espaço, um laboratório onde eu posso testar as minhas loucurinhas. Isso para mim. Agora, eu apresentar a Kyvo para o mundo, acho que é uma consultoria de design que tem a pesquisa como um forte braço para entendimento de entrega de qualidade, entrega de fato centrado no ser humano, é uma entrega que não prioriza só o negócio que está sendo desenvolvido mas quem vai usar aquele negócio que está sendo desenvolvido. É uma empresa de design voltada à inovação e que olha para pesquisa como um forte asset. Todo projeto nosso tem pesquisa, o cliente comprando ou não, porque gente internaliza nem que passe um dia, mas tem pesquisa.

Izabela: Muito bom ouvir isso. Como vocês fazem pesquisas na Kyvo, conta mais para a gente?

Carol: A gente tem algumas modalidades. Tem a modalidade de pesquisa qualitativa, que é baseada nessa idéia de pesquisa etnográfica que eu construí no meu olhar das Ciências Sociais. Essa pesquisa qualitativa pode vir a ser entregue para diferentes tamanhos, desde um projeto inteiro de pesquisa onde só tem pesquisa ou onde tem outras modalidade, que têm pesquisa e desenvolvimento da solução ou uma outra modalidade que é pesquisa, desenvolvimento da solução e implementação. O tamanho da pesquisa qualitativa varia de acordo com o tamanho do projeto como um todo. Se o projeto prevê uma pesquisa qualitativa de três meses, vai ser um pesquisão com uma entrega colossal. Se vai ser uma pesquisa de uma semana, vai ser uma pesquisa também qualitativa mas com uma entrega de uma semana. A gente tenta criar modalidade de entrega de acordo com o tempo de pesquisa pré-acordado com o cliente.

Fora isso, a gente tem a pesquisa que está desenvolvendo no último ano, que é uma pesquisa voltada para a sprint. O que é essa pesquisa? Eu brinco na Kyvo que eu tento pedalar a pesquisa, então gerar um conteúdo ou uma ferramenta ou um tipo de pré-indexação antes da pesquisa acontecer. Eu meio que já vou para campo pensando que eu tenho xyz entregas. A entrega já está organizada na cabeça antes da pesquisa acontecer. A pesquisa clássica, não, a entrega acontece durante o campo. Essa outra que a gente está desenvolvendo, como a gente já vem com um problema mais ou menos formatado, então já sabe quais os tipos de necessidades de entrega a gente tem. Quando a gente vai a campo, vai tentando cassar a informação para essas entregas. Ah Carol, mas isso pode ser precisa de validação. Pode ser. Eu não gosto do termo validação, mas eu prefiro pensar que é uma pesquisa pré-formatada. Ela não chega a ser uma pesquisa clássica semi-estruturada, mas é uma pesquisa pré-formatada, já tem uma modelagem pronta antes de existir.

A outra pesquisa que a gente faz é de um dia, que é pesquisa em espaços de cocriação. A gente agora mesmo vai começar a desenhar uma série de pesquisas dessa para um cliente. A gente chama o cliente do cliente, bota o cliente, gera uma cocriação e eu vou observar o máximo de informação que tem ali acontecendo porque eles são especialistas em parte das informações. Muitos clientes têm informação e não sabe usar. Isso é uma coisa que a gente tem feito bastante, de ajudar o cliente a usar a informação que ele mesmo tem.

Também temos testes de usabilidade. Temos outras modalidades, tipo o focus group, que a gente não gera grupo focal. O grupo focal é muito difícil a gente fazer, mas a gente cria a estrutura do grupo focal, que é colocar um grupo na mesa com diferentes perfis, mas ao invés de gerar perguntas de grupo focal a gente propõe espaço de cocriação. Ali a gente consegue trazer jornada, consegue fazer entendimento de expectativa de algum produto, consegue até criar cara de template e wireframes com o pessoal.

Izabela: Interessante. Agora, só para ilustrar um pouco mais esse momento no qual esses projetos entram, porque tem os projetos que são mais médio/longo prazo, esse de três meses por exemplo, e tem esses outros que são para encaixar na realidade de uma empresa de produto. Você disse que você faz a pesquisa antes da semana da sprint, ou seja, vocês estão fazendo antes da semana de projetar o produto? A gente está conversando aqui sobre sprint de design, não sprint desenvolvimento. É como se você fosse para campo testar algumas hipóteses antes mesmo de começar a desenhar. É isso?

Carol: A gente está executando duas modalidades nesse caso. A gente faz esse momento de ir a campo antes de começar a desenhar o projeto. Vamos supor, vamos uma semana a campo, entrega esse conteúdo e aí inicia a sprint de design. E a gente já está com uma outra modalidade em que, durante uma sprint de cinco dias, dois dias são de pesquisa. Um dia de campo e um dia de indexação, os outros três dias o desenvolvimento da sprint.

Izabela: Muito legal. E tem dado certo?

Carol: Tem sprint que sim e sprint que não. Não adianta dizer que tem dado super certo. Tem sprint que dá certo e tem sprint que não dá, mas eu acho que faz parte da sprint também dar errado. Eu tenho batido muito nessa tecla de que a gente tem uma necessidade de controle em pesquisa, que as pessoas trazem que a pesquisa tem que dar certo. Não existe essa coisa da pesquisa que tem que dar certo. Se a pesquisa de um projeto, uma pesquisa longa, já não é linear, imagine uma pesquisa de sprint, onde tudo pode dar errado.

Izabela: É verdade, sempre um frio na barriga enorme.

Carol: Tem pesquisas que deram resultados legais e que trouxeram altos aprendizados,tem pesquisa que trouxe pra gente ter certeza que está indo para o caminho errado, que é melhor parar por ali e começar de novo.

Izabela: Muito interessante isso, Carol. Eu acho que é importante também falar do que não tem dado certo na forma que a gente faz UX Research porque porque isso ajuda as outras pessoas a se sentirem mais confortáveis com o processo.

Carol: É justamente isso. Acho que a gente tem um mercado que fala muito de acertos, só que a gente o tempo todo fala que é importante errar. Aí fico, está todo mundo acertando e dando tudo certo, e onde está o espaço do errar mesmo?

Izabela: É verdade. O planejamento da pesquisa é o primeiro passo para começar as investigações. Quais são os pontos que você considera na hora de planejar uma pesquisa, por exemplo, por uma sprint ou – se é que tem alguma diferença – uma pesquisa de médio/longo prazo?

Carol: A coisa que eu acho mais importante de fazer dentro desse método que desenvolvi com a Kyvo, que a gente está tem formatado bem junto, não é nem o planejamento. Para gente, o momento crucial está sendo ainda o briefing por conta daquele pulo do gato que eu te falei sobre olhar para o fenômeno ao invés de olhar para o problema. É no briefing que a gente tem conseguido gerar uma acuidade melhor de informação, uma acuracidade de recorte de campo. Muitas muitas vezes o comercial traz briefing, e eu acho que é meio comum isso, só que o comercial traz o briefing de uma pessoa da empresa e essa pessoa da empresa está representando diversas outras pessoas e essas diversas outras pessoas têm expectativas diferentes de pesquisa. Antes de qualquer pesquisa nossa, a gente chama para uma conversa, de mais ou menos duas a quatro horas, que a gente chama de workshop pré-campo. A gente faz alguns exercícios de alinhamento com todo mundo que está envolvido nessa pesquisa de alguma forma. O comercial vai usar essa pesquisa para isso, o marketing vai usar aquilo e o financeiro usar pra não sei o que. Está bom, então chama todo mundo para uma sala e vamos conversar com todo mundo. Está todo mundo satisfeito com isso aqui, com essa pergunta? Todo mundo satisfeito com essa pergunta. Beleza, volto para a Kyvo, gero o planejamento. Geralmente eu faço dois, podemos ir por esse caminho que vai levar tantos dias, consumir tantas horas do projeto e gastar tanto de recurso ou a gente vai por aquele outro caminho que vai gastar tantos dias, tantas horas e tanto recurso. Geralmente o que muda no A e no B, ou eu sugiro extremos diferentes ou sugiro uma abordagem diferente de pesquisa. Eu tô falando da pesquisa mais longa, Iza. Abordagem A vai passar por um focus e depois campo e a abordagem B vai direto para o campo e no final a gente gera mais tempo de análise. Aí o cliente escolhe qual lhe interessa mais e a gente desenvolve a pesquisa. Vai para recrutamento, desenho de ferramenta se necessário, produção de roteiro, o set-up de campo porque às vezes tem campo fora de São Paulo ou campo que é mais complicado quando o perfil é muito específico. Os nossos campos geralmente são na casa das pessoas, a gente meio que preza por isso de ir até a casa da pessoa. Esse é o campo longo.

O campo das sprints, o problema vem pronto pra gente e na Kyvo mesmo transforma o problema para fenômeno. A gente começa a fazer um benchmark de pesquisa, então é olhar o que já existe no mundo sobre aquele assunto. Aí a gente gera algumas ferramentas que vão nos apoiar em campo, principalmente para indexação de conteúdo. Nessa pesquisa vai precisar de persona, então a gente já sai quase que com um template pronto de persona para preencher em campo porque é um dia de pesquisa só, é muito rápido. É um dia de pesquisa e um dia de indexação, não tem tempo pra gente ficar avaliando essa persona é assim e assado. Não, a gente tem que sair daquela entrevista com o userboard quase pronto. É dessa forma que tem funcionado os sprints.

Izabela: Quando a gente fala de sprint está falando de um sprint de quantos dias?

Carol: Cinco, geralmente cinco. Estou doida por uma sprint de 15.

Izabela: Acho que seria legal se a gente pudesse colocar um exemplo dessa diferença de olhar pro fenômeno ao invés de olhar para o problema.

Carol: Quando é feito o planejamento de projetos ou planejamento de áreas, as empresas setam coisas como aumentar a conversão de clientes. Uma empresa de café precisa aumentar o número de consumidores dela para atingir um share de mercado maior. No que ela foca? Em aumentar o número de consumidores. Esse é o plano de negócio, Quando eles fazem o briefing, a gente pergunta qual é o problema que vocês têm. A gente quer aumentar o número de consumidores. Então eles enxergam o problema como aumentar o número de consumidores, logo a gente quer que as pessoas bebam mais o café deles. O problema para eles é: as pessoas não estão bebendo o café da minha marca. O caminho que é feito chega nessa fala. As pessoas não estão bebendo café da minha marca. Só que ao invés de olhar para as pessoas não bebendo café da marca xyz, quando a gente vai a campo a gente tenta organizar o campo no sentido de: o que faz com que as pessoas bebam café porque antes de saber por que as pessoas não estão bebendo a marca x, a gente quer entender por que as pessoas bebem café ou porque elas não bebem café, o que faz com que elas bebam café. Que espaço é o café que faz com que as pessoas queiram interagir, o que tem no café que faz com que seja uma bebida social ou não, entendeu? A gente tenta trazer essas perguntas mais sociológicas para dentro de uma pra dentro de uma pesquisa. Ao invés da gente responder ipsis litteris o problema de um modelo de negócios, a gente vai responder a hipótese de uma pesquisa, que é a hipótese de um fenômeno. Tem uma matéria que saiu na Harvard Business Review, acho que em 2015 não tenho certeza, que eles resumiram muito bem isso de ao invés de olhar para o problema, você olhar para o fenômeno. Vou usar o outro exemplo que era a própria revista. Eu não sei está na revista esse exemplo, mas enfim. A Lego contratou uma equipe de pesquisadores para entender por que as crianças não brincavam mais com o Lego. Pesquisadores fizeram acho que dois anos de pesquisa e entenderam que as crianças não se interessavam por Lego porque o Lego tinha uma modalidade muito burocrática de fazer a criança seguiu o roteiro de brincar e as crianças já tinham seus dias dias muito atarefados e o Lego era mais uma atividade de tarefa. Eles só entenderam essa relação porque ao invés de olhar por que as crianças não brincam com o Lego eles foram olhar para o dia a dia das crianças e o que é brincar para as crianças hoje. Não focaram no problema do Lego, mas focaram no fenômeno onde o problema até inserido.

Izabela: Muito bacana esse exemplo, Carol. Eu acho que pensar nisso é muito legal para o dia a dia. Acho que a gente muitas vezes é brifado para problemas relacionados à interface e muita das vezes as pessoas que estão nos pedindo já imaginam um teste de usabilidade porque tem que entrar no tempo da sprint e muitas vezes o problema de fato, a causa do problema, não está ali. É muito bom ouvir você relatando isso.

Carol: Nesse sentido tenho um exemplo bem interessante de pesquisa que a gente realizou em São José dos Campos, no interior de São Paulo. A gente foi contratado pela prefeitura de São José, na verdade por um instituto que atendia a prefeitura de São José, para entender por que as pessoas iam até a prefeitura para abrir uma chamada de uma limpeza, de uma retirada de árvore da rua ou de um carro abandonado. As pessoas iam até a prefeitura ao invés de ligar ou é fazer via computador. Na cabeça do instituto que nos contratou, era um problema de usabilidade. A gente foi e observou o problema do cadastro e de fato tinha um problema de usabilidade, mas não era o problema de usabilidade que fazia com que as pessoas fossem até prefeitura. Era um problema social porque o fato de as pessoas de São José dos Campos serem mais velhas e com menor envolvimento com digital, fazia com que elas não tivessem interesse em abrir um chamado de limpeza via computador ou mesmo telefone. As pessoas preferiam ir até a prefeitura, uma pessoa abrir o cadastro no computador, imputar os dados, ou seja, digitar. Aquela pessoa só fazia o meio campo de abrir um chamado e isso podia ser feito em qualquer lugar da vida do usuário, mas o usuário não tinha nenhuma familiaridade com digital e preferia ir até a prefeitura.

Izabela: Muito interessante. É isso, a gente consegue controlar os elementos da experiência, mas muitas vezes o problema pode estar relacionado ao comportamento. E o comportamento daquele serviço que a pessoa tem contato é muito mais difícil de controlar – na verdade, não é controlar porque a gente não controla –, de projetar os elementos da experiência, sendo que se a gente não entendeu o comportamento é praticamente impossível.

Carol: Impossível. É isso, justamente.

Izabela: Falando um pouco mais dessa etapa de planejamento, que é uma etapa bastante importante. Muito se fala sobre investigar com cinco pessoas por causa do estudo do Nielsen que mostra que é possível a gente encontrar 80% dos problemas de usabilidade com esse número de pessoas. O que você acha desse número, o que você acha dessa informação para a gente pensar em amostra?

Carol: Esses dias eu até fiz um post polêmico no Facebook. Eu tenho um pouco de dificuldade com o Nielsen. Não pelo tamanho do trabalho dele e pelo caráter do trabalho dele, mas porque virou um dogma. Isso para mim é uma dificuldade. Esse número do Nielsen eu diria que é um achismo. Pela quantidade de casos que ele estudou, ele viu que a partir de 5 se repete. A fala dele inclusive essa. Nas Ciências Sociais a gente nunca teve essa relação, a gente tem uma relação totalmente aberta com o número de entrevistas. A Sociologia e a Ciência Política são um pouco mais rigorosas ainda. Tem que ter no mínimo dez pessoas porque dez pessoas é o número de vozes aceitável dentro da realidade de uma comunidade, tem essas explicações assim. Agora, na Antropologia, não. Como a antropologia lida com uma condição interpretativa, você pode falar com uma, cinco ou dez pessoas. Não interessa, você vai usar a quantidade de pessoas que você falou e fez sentido para a pesquisa, não tem muito uma regra de quantos números têm que usar. A gente usa, geralmente, números pares porque a gente tenta estabelecer extremos. Para fazer cada par de extremo e dividir no meio algumas pessoas com características diferentes só para a gente dar uma testada na informação. Isso porque eu estou num ambiente de mercado. Se eu tivesse fazendo uma pesquisa fora do mercado, em um universo de pesquisa acadêmica, eu não inicio uma pesquisa já sabendo com quantas pessoas eu vou falar. Vou falar com quantas pessoas eu precisar para me dar a informação que eu preciso saber. É um pouco isso.

Izabela: Quando você fala de extremos, você tem algo em mente para a gente trazer um exemplo aqui? Por exemplo, se você é tiver alguma mostra que você planejou recentemente que tinha quatro pessoas.

Carol: A gente pegou uma pesquisa de programa de pontos uma vez. A pesquisa veio com oito perfis. O marketing mandou para a gente oito perfis de pesquisa. Melhor dizendo, o marketing quando mandou eram oito perfis de público alvo. A gente reduziu de oito para quatro perfis de uso. Tinha o que usava muito o produto, tinha o que quase não usava o produto e a gente colocou dois intermediários, usa muito produto mas resgata pouco ponto e usa pouco o produto mas resgata muito ponto. Daí a gente tinha duas variáveis e fez um mix disso. Tem outro outro perfil que eu uso muito porque agora todo mundo quer nativo digital. Então a gente criou uma matriz e foi foi na cagada essa matriz. Eu fiz uma matriz para explicar o que era nativo digital e nativo analógico de acordo com que a Lúcia Santaella, que é uma pesquisadora de semiótica, fala de nativo digital no Brasil. Eu só criei um quadradinho para explicar e deu certo. Tem os caras que nasceram após década de 90 e os que nasceram antes da década de 90. Analógico são os que nasceram antes da década de 90, digital são os que nasceram depois da década de 90. Tem as pessoas que pensam de forma analógica ou que pensam de forma digital. Nisso eu criei uma mini matrizes, que ficou nativo analógico que pensa analógico, nativo digital que pensa analógico, nativo digital que pensa digital e nativo alógico que pensa digital. Nisso a gente apresenta para o cliente essa relação e o cliente diz que quer esse cara. Esse cara, que é o analógico analógico são as pessoas nasceram analógica, foram todas educadas por livro, e com escrita manual e quase não tiveram contato com o computador na vida adulta ou tiveram contato com o computador na vida adulta de forma passiva e não de forma ativa. O digital analógico, é o cara que já nasceu digital, tem condições de levar tudo no digital mas por uma questão de ideologia prefere fazer tudo no analógico. Os famosos hipsters, os bicho-grilo. Este mais 90 e menos 90 é mais ou menos, viu Iza, não é nada muito concreto. Aí tem o cara que é analógico digital, é a maioria das pessoas da nossa geração, que nasceram analógico e tiveram a maior parte da formação no analógico – teve barça, copiou mapa –, mas por uma questão até de mercado teve que migrar por digital e fez em algum momento da vida um curso de computação e entrou em contato com o computador já ainda na fase da adolescência. E tem os digitais digitais, os ditos millennials, que eu nem gosto muito dessas características. A gente usa bastante isso aqui como usuário extremo.

Izabela: Legal, muito legal esse exemplo. Isso tudo que a gente fala é para chegar na moderação. Eu queria que a gente falasse sobre entrevista porque é uma técnica de fácil acesso para qualquer pessoa. Quais são os pontos de atenção que você acha que a gente deve ter em mente na hora de entrevistar?

Carol: A primeira coisa que eu falo com todo mundo que está perto de mim de alguma forma, trabalhando comigo, tendo aula comigo ou mesmo se consultando, é que eu não gosto de usar o termo roteiro porque acho que tem pessoa que é muito organizada. Essas pessoas que são muito organizadas olham assim: isso é um roteiro, se é um roteiro eu tenho que seguir o roteiro. Eu acho que tem que ser um pouco mais livre nesse sentido. Eu uso guia de campo. São temas que eu não posso deixar de conversar com aquela pessoa. Tem muita gente do time que prefere o roteiro escrito bonitinho. Só que o que eu peço para todo mundo fazer é destacar a palavra, coloque em negrito algumas palavras porque você vai bater o olho ali e vai lembrar que você tem que perguntar. A forma de perguntar varia, você só não pode claro fazer pergunta impondo a pessoa de responder sim ou não. Essa é uma primeira informação de uma entrevista, as perguntas têm que ser abertas o suficiente para que a pessoa continue a falar e não uma pergunta que termine em uma resposta sim ou não. Se você derrubar a pergunta e cair em um sim ou não, pergunta um por que na sequência. Outra coisa, você não tem que estar em uma entrevista procurando a resposta. A resposta tem que vir na análise, se aquela resposta vale ou se aquela informação vai fazer sentido, isso vai ter que vir na análise. Naquele momento você tem que se mostrar aberto e com a escuta ativa o suficiente para estar interessada naquela fala. Se a pessoa está conversando, não fica preocupado em cumprir o roteiro e cumprir o cronograma, faz essa organização de outras formas. Gera um alarme no seu celular, leva relógio com timer e vai se policiando no tempo das perguntas, tem pergunta que vai durar mais tempo e pergunta que vai durar menos. E não fica nervoso com isso, tem gente que vai cortando entrevistado porque tem roteiro para cumprir. Outra coisa, ajudar a pessoa a responder às perguntas importa porque tem pergunta que você vai fazer para a pessoa e ela não faz idéia de por onde vai responder, aí obviamente vai tomar um tempo enorme. Tipo, você se considera online e offline? Leva uma régua para a pessoa apontar, dentro da cabeça dela, se ela se acha mais ou menos online ou offline. Ela vai fazer um cálculo ali na hora, mental e inferido, de onde ela acha que está. Isso é dado de campo. Eu eu trago muitos exemplos da minha vida para ajudar as pessoas a falar, então eu faço a pergunta e digo na sequência: por exemplo, eu quando tenho que fazer uma compra, gosto assim ou assado, ou eu faço tal coisa, eu faço não sei o que. Lógico que esses momentos que eu trago eu tento mapear nessa guia escrevendo: dar o exemplo do suco verde, dar o exemplo do gato da vizinha, dar o exemplo não sei o que. Eu trago elementos da minha vida para deixar a pessoa mais confortável. Fora isso, estabelece contato visual, olhar no olho da pessoa. Por isso é sempre importante ter uma outra pessoa que vai escrever. Por exemplo, eu não tenho habilidade de escrita olhando para pessoa. Eu escrevo, mas depois a minha letra fica o inferno, sabe deus se eu consigo decifrar. Se você puder ir em dupla, ajuda muito. E tem coisas que durante a entrevista que, está fazendo entrevista não consegue notar e que o segundo observador consegue. Tanto na casa quanto como a pessoa se comportou com determinada pergunta. Eu até brinco com as pessoas que o lugar menos editável da casa é o banheiro. Pede para ir no banheiro. Se não for lavabo, no banheiro a gente consegue ter um pouco mais de noção de quem é essa pessoa no dia a dia.

Izabela: Fantástico. Você comentou brevemente que a resposta tem que vir na análise, que é uma das etapas também mais importantes do processo. O que você recomenda para aprender a analisar?

Carol: A gente tem um problema muito sério com a análise, que na verdade não é nem análise, é o tempo que a gente tem para análise. O crucial para a análise a gente não consegue chegar porque a gente sempre tem que entregar antes. No início eu ficava frustradíssima de ter entregado o report e aí vir um “isso seria fantástico ter incluído”. Isso é o tempo da pesquisa. A gente tem esse tempo de sedimentação do campo que a gente não respeita muito. Isso está dentro do mercado, o formato que o mercado está organizado não tem esse tempo para respeitar o tempo de maturação da informação. Embora na Kyvo eu tenho conseguido a duras penas, e eu tenho que agradecer muito ao time da Kyvo, porque eles sempre respeitaram esse meu espaço de briga que cada dia de pesquisa eu tento fazer dois dias de análise e dois dias de produção de conteúdo. Então eu praticamente dobro o tempo de análise e produção de conteúdo após um dia de campo. Isso é raríssimo acontecer.

O que a gente faz na análise? A primeira coisa é colocar tudo isso para fora. Botar para fora, gerar post-it, clusterizar a informação. Aí a gente vai discutindo, discutindo, discutindo discutindo, discutindo a informação. Tipo, este fulano com aquele fulano deram tal informação. Será que a gente pode pensar nesse caminho? Ah, vamos pensar. Pensa por aquele caminho, não funcionou. Aquele fulano com aquele fulano dá pra pensar por esse caminho? Vamos tentar. É, esse caminho funcionou melhor, vamos continuar por ele. Aí a gente vai gerando os clusters. Toda nossa entrega geralmente tem a documentação dos usuários, então isso já é uma análise. Ao invés de ser persona, a gente gera o user board. É muito parecido com persona, mas é a informação nua e crua coletada em campo com a fotinho do cara, com a biografia do cara, com a jornada que ele descreveu. Todo projeto nosso tem essa entrega, que essa ficha de campo com quem a gente entrevistou. É uma tradução meio que literal de uma prática clássica de pesquisa, que é a transcrição da entrevista. Quando você entrega uma pesquisa acadêmica, você entrega a transcrição da entrevista. A gente não entrega a transcrição da entrevista, mas a gente entrega a ficha do usuário. Depois a gente gera as personas a partir desses usuários. A gente produz essas pessoas mesmo que não seja o principal entregável da pesquisa. Mesmo que seja um serviço, ainda assim a gente gera as personas para quem a gente desenhou aquele serviço ou aquele produto digital. E, por último, a gente entrega a cereja do bolo, o produto em si ou a idéia de produto. Tem muitas vezes que a gente leva os insights e gera a cocriação com o cliente, então o produto sai de cocriação com o cliente. Mas a gente leva todos os insumos e lá a gente produz um workshop de cocriação de onde vai sair a solução. Geralmente é isso.

Izabela: Como é que vocês transformam os aprendizados de pesquisa em acionáveis para o produto? Você acabou de comentar de um workshop de criação. Por exemplo, vocês desenham todos juntos desenham? Queria mais exemplos de como que a gente pode fazer o insight virar o produto.

Carol: O coletivo de insights faz com que a gente guie para onde o produto vai ser produzido. Vamos pegar um exemplo, a gente fez uma pesquisa para um produto financeiro digita, era para um banco que já está no ar, mas eu não sei se o produto em si está no ar. A gente teve várias entrevistas e alguns on-focus para testar uma hipótese. Logo no início essa hipótese caiu só que aí a gente ainda tinha que entregar algum conteúdo para o cliente mesmo que a hipótese tenha caído. O cliente entendeu que a hipótese caiu, que o perfil que eles estavam olhando não fazia sentido para o produto digital que eles estavam desenhando. Aí a gente foi testar com os outros públicos que a gente já tinha levantado. Então a gente apresentou inclusive essa matriz que mostrei agora dos nativos analógicos e digitais, e a gente foi focar nos outros perfis dessa matriz para gerar novas hipóteses. Por exemplo, como que um nativo digital com o pensamento digital usaria o produto dele. Então a gente trouxe uma gama de insights sobre como esse tipo de persona usaria o produto desse cara porque aí o cara poderia desenvolver o produto dele pensando em qual dessas personas ele queria usar. Foi o que ele fez. A gente gerou uma matriz de priorização em relação a cada um dos perfis e mostrou, esse perfil nativo digital com o pensamento digital vai resolver facilmente as demandas deles via celular então você pode usar xyz produto no celular que vai ter fit com ele. Foi esse tipo de coisa que a gente criou para esse produto.

Agora deixa eu pensar um outro exemplo de transformar os insights. Quando vai para o wireframe a gente leva os rascunhos que as pessoas fizeram para explicar como deveria ser a tela. Durante os on-focus a gente fala assim: se você quisesse contratar determinado serviço e a única forma de contratar esse serviço fosse via celular, como que seria essa tela. A gente leva isso para análise e faz uma tela baseada no que o usuário pediu e propõe para o cliente. Isso aqui de acordo com as heurísticas de Nielsen é aceitável ou não é aceitável, mas se o cara está dizendo que daria para fazer algo do tipo, dá para a gente pensar em alguma coisa assim e testar em um teste de usabilidade. Isso é uma coisa que a gente já fez. No outro ponto do serviço, a gente acaba usando as personas e os insights de campo para botar o cliente que contratou a pesquisa imerso naquela realidade. Faz com que o cliente gere o serviço ou às idéias de serviços possíveis.

Izabela: Persona é um entregável bastante comum no nosso mercado. Em qual contexto você acha que essa materialização faz sentido e por quê?

Carol: Eu tenho um pouco de receio com de persona porque tem muita gente que se apaixona pela persona e faz daquilo uma verdade, Eu acho que qualquer um dos nossos recursos são o suporte, eles não são a verdade única e exclusiva da pesquisa. Tanto que, se colocar eu e uma outra pessoa com a mesma formação que eu olhando para o mesmo campo, olhando para as mesmas características de campo, a gente vai entregar coisas muito diferentes porque tem a interpretação do time que está realizando isso, tem a interpretação do time que está recebendo isso. São variáveis que geram uma gama de informação diferente. Toda vez que eu vou entregar a persona eu acho que ela tem que ser usada como uma interpretação e não como uma pessoa que de fato existe e vai usar o produto. Acho que ela não pode ser usada como uma verdade única, mas ela tem que te lembrar que existe um grupo de pessoas que funcionam daquela forma e também tem que te lembrar que existe um grupo de pessoas que não funcionam daquela forma. Não dá para fechar resposta de que a persona serve para tal coisa, eu não consigo, tenho dificuldade para caramba.

Izabela: Eu estou aprofundando isso porque eu ando questionando muito o quanto que criar personas pode ser útil em um contexto de produto. Se você tem uma base de clientes que é uma base de milhões de pessoas, como usar personas para direcionar o que está sendo projetado, o que está sendo desenvolvido? Eu ando pensando muito na questão de casos de uso.

Carol: Isso é interessante. Eu nunca trabalhei em uma empresa como o iFood, por exemplo. Eu acabo gerando informação muito mais estratégica, muito mais no sentido de negócio, do que uma informação de produto para atingir milhões de pessoas de uma vez só. Até porque no caso desse tipo de produto que você está falando, que vai impactar milhões de pessoas, ele é work in progress. Esse já é um achismo, eu não posso estar errada. Você vai fatiar o produto, você não vai desenhar ele como um todo só para aquela pessoa. Cada equipe tem a responsabilidade de uma parte do produto. Você olha para diferentes personas nessa jornada do produto. Eu acho que a persona serviria para essa realidade. Talvez eu tenha conseguido concatenar um pensamento, vamos lá: se eu olhar para um produto dessa característica que tem um impacto grande na vida das pessoas, eu não olharia para a persona como um todo, eu olharia primeiro para a jornada daquele produto, para o serviço que aquele produto faz e dentro daquela jornada olharia para as diferentes personas nessa jornada. No momento um em que o produto foi acionado, quais são as personas que utilizam esse momento? Vou pegar o Mercado Livre porque acho que está mais neutro na conversa. Eu olharia qual a jornada que o Mercado Livre está envolvido. No momento da compra no Mercado Livre, quais são as personas que estão envolvidas, quem são os stakeholders? No momento da validação do pagamento, qual são os stakeholders que estão envolvidos? E desenharia todas as personas de cada um desses stakeholders. Eu pensaria dessa forma personas, para essa característica de produto.

Izabela: Interessante porque tem uma questão que as pessoas têm comportamentos diferentes, não são as mesmas sempre. É complicado a gente colocar as personas em caixinhas para pensar em produtos de diversos tipos, não só como o iFood, mas produtos digitais que têm fluxos complexos, que têm diversos casos de uso, que tem diversas possibilidades de uso, e pensar que o contexto no qual as pessoas estão inseridas muda a forma como elas usam aquele produto ou serviço. Tem hora que eu não vejo muito sentido em persona, mas nesse caso em jornada eu achei bastante interessante. Foi muito bom te ouvir.

Carol: Você acaba agregando essa coisa do momento. Você tocou em um ponto que eu acho fundamental, que é o contexto de uso. Não adianta nada a gente não parar para pensar no contexto de uso. O cara está tá no Mercado Livre comprando dentro do metrô, e falhou. Ele vai perder o processo de compra dele? São coisas que a gente tem que levantar para momentos de uso, sim, eu concordo com você.

Izabela: Principalmente quando a gente está trabalhando para mobile, que contexto é tudo. Eu li um artigo seu no qual você diz que prefere usar o conceito de alteridade ao invés de empatia. Qual a vantagem da alteridade?

Carol: Voltamos para a história do meu background. Na Antropologia a gente nem usa a ideia de empatia para pesquisa. A gente usa a ideia de empatia como uma realidade humana. Você é um ser humano, está lidando com outros humanos, então tem que ser empático com qualquer humano independente do que ele tenha feito na vida. O indivíduo é humano, temos que trazer essa humanização de volta, que talvez tenha ficado um pouco apagadinha no último século. A alteridade é um instrumento metodológico e, para a Ciências Sociais, é um espaço de análise onde o pesquisador não pode de forma alguma tirar a voz do indivíduo observado. Eu não posso pensar com o meu viés de pesquisa, com o viés de vida, com o meu histórico, qual a jornada que aquele outro indivíduo tem. Todos os lugares usam a dor como um parâmetro da empatia. Qual é a dor do outro? Eu acho complicadíssimo porque a dor é subjetiva, ela não é quantificável. Existe até dentro da Medicina o parâmetro de 0 a 10 para o tamanho da sua dor porque eu não consigo avaliar a sua dor. Por isso que para mim a empatia não cola. Você tentar usar o sapato do outro e ver onde dói no outro é impossível. Você vai usar o sapato do outro e ver onde dói para você porque você que está usando o sapato do outro. O sapato está moldado no pé do outro assim como a cultura está estabelecida para o outro. E a alteridade na minha opinião é um caminho mais cocriativo. Eu vou estabelecer o espaço, eu pesquisador sei qual é o meu lugar de fala e estou dando para ele o lugar de fala dele e com ele eu vou criar essa ideia de dor que ele vai me dizer que tem. Muitas vezes nem ele sabe que tem o essa dor, só que eu vou trazer algumas perguntas para o entendimento da dor dele e ver se aquilo faz sentido. É nesse sentido que para mim é a alteridade tem mais lugar metodológico do que a empatia. Não descaracterizam a empatia porque acho que a empatia tem que existir no mundo, não apenas no momento da pesquisa. Esse é o meu principal choque com a empatia versus alteridade e por isso que eu sempre bato que a alteridade para mim é um lugar mais confortável de fala. A Antropologia só usa a ideia de alteridade, ela não usa a ideia de empatia. Além disso, a alteridade dá direito do indivíduo que está sendo pesquisado falar. A empatia dá direito do pesquisador dizer a respeito do outro. Essa para mim é a principal dificuldade com a empatia. Eu acho que nós, como pesquisadores, temos que dar esse lugar de fala para o outro indivíduo porque essa é a nossa função, nós somos tradutores, a gente não faz nada além de traduzir a fala de alguém, nada além de apresentar a fala daquela pessoa contextualizada. Quando a pessoa traz determinada informação, o meu papel de pesquisador é não só trazer essa informação mas o que ela quis dizer e quais são os signos e símbolos que estão envolvidos dentro dessa fala.

Izabela: Muito interessante te ouvir. Muitas vezes a pesquisa entra no processo com caráter apenas de validação. Como que a gente pode fazer para que a atuação seja também na estratégia?

Carol: Ultimamente, eu como Head, tenho atuado mais na estratégia do que na validação. O combinado que eu tenho com a Kyvo, e quando eu digo que a Kyvo é meu laboratório é por isso, é que mesmo na validação a gente não deixa de explorar. Mesmo durante a pesquisa de validação a gente ainda está olhando 360º e linkando os pontos. Quando a gente faz a entrega a gente aponta que o produto é esse mas que vale a pena desenvolver mais nesse caminho porque existe pouco disso no mercado. Eu validei a hipótese do cara, eu entendi a hipótese do cara, mas eu estou apresentando para o cara que se ele continuar caminhando por determinada via ele vai ter uma eficácia nesse sentido.

Izabela: Qual que você acha que é o principal desafio de trabalhar com pesquisa em consultoria?

Carol: Para mim, o tempo sempre. Pesquisa é um recurso caro. Aliás, eu não acho caro. Esses dias alguém falou isso, acho que foi no evento que o Huxley organizou, e eu concordei. Não é que a pesquisa é cara, dentro do montante que o cliente está investindo a pesquisa não é cara. O problema é que o cliente não foi educado para olhar a pesquisa como uma proposta de valor diferenciada. A consultoria o tempo todo tem que estar brigando pra aumentar horas de pesquisa. Para mim, em consultoria é uma briga eterna. Toda vez que chega um briefing o pessoal daqui já olha e fala que a pesquisa é pequena. Eu estou tendo que criar estratégias e aí eu brinco até que é uma engenharia de pesquisa, de trazer a maior quantidade de informação com o recurso que a gente tem. A gente tem uma semana e uma pergunta gigantesca, vamos aumentar o número de pesquisadores treinados, já com análises mais profundas. Ou a gente tem mais tempo de pesquisa e então a gente pode usar um time menos treinando porque vai ter um acompanhamento maior. A gente que ficar fazendo essas engenharias.

Izabela: Como fazer da consultoria uma aliada da empresa que contrata o serviço? Como que a gente faz para os aprendizados adquiridos no projeto não fiquem só na consultoria e sejam disseminadas e aplicados no dia dia da empresa que contratou?

Carol: Isso é muito legal, Iza. Isso a gente tem feito muito com os clientes. A gente fala para o cliente que precisa saber três informações para ajudar dentro da sua atividade: eu preciso saber por que você está contratando essa pesquisa, eu preciso saber para quem você vai entregar e qual a vantagem que você leva com essa pesquisa porque eu preciso saber quais são os objetivos internos do time que contratou essa pesquisa para a gente desenvolver a pesquisa daquela forma didática que eu tinha falado. Eu preciso dessa pesquisa para convencimento para aumentar a área de UX aqui dentro. Está bom, vamos fazer uma pesquisa para mostrar para quem você tem que mostrar o quanto UX interessa para aumentar a eficácia do produto. Se o cara que contratou a gente não for parceiro nesse sentido de abrir para a gente qual é a finalidade, a gente não consegue. Quando a gente consegue fechar parceria bem feitinha com o cliente e que atua no âmbito estratégico, nossa parceria vai embora. Isso daí funciona muito bem. Esse produto que eu te falei do banco, que a gente testou e a primeira hipótese caiu logo de cara, aconteceu bem isso. O cliente abriu para a gente qual era a necessidade do nosso trabalho e a gente atuou com eles tranquilamente. Teve um monte de projeto.

Izabela: Interessante isso. Você comentou do seu time, como que é o seu time?

Carol: Na Kyvo tem um time multidisciplinar. A gente tem um time que tem mais características de pesquisa e um time que tem mais característica de digital, mas nesses dois times são as mesmas pessoas que atuam em momentos diferentes.

Izabela: Você tem profissionais que são pesquisa full-time ou eles são multidisciplinares?

Carol: Eles são multi-áreas. Eles não fazem só pesquisa. Todas as pessoas que estão no time de pesquisa hoje atuam com pesquisa tem algum tempo mas são designers. Todos eles estão capacitados a ir para as sprints, estão capacitados a dar pitaco nos desenvolvimentos digitais. A gente tem um time que é mais especializado em soluções digitais, mas a gente gera dupla. Bota uma pessoa que é especializada em soluções digital com um pesquisador, mas todos eles fazem tudo.

Izabela: Qual a vantagem de trabalhar com pesquisadores que também são designers?

Carol: Eu não sei trabalhar com pesquisadores não designers. Brincadeira. Eu gosto muito da síntese que o design faz. Às vezes eu passo três horas explicando alguma coisa aí vem o Guilherme e responde em uma palavra. Esse poder de concisão do design ou de apresentar visualmente é maravilhoso. Tem a Júlia, que às vezes eu venho e faço para ela um quadrado com três linhas explicando o que eu queria dizer e ela me apresenta quase que, brincadeiras à parte, quase que um infográfico. Essa concisão de pensamento e essa concisão visual da informação para mim é fantástica, eu não sei viver sem. É tipo de droga.

Izabela: Se você pudesse dar dicas para quem quer se especializar em pesquisa, qual seriam?

Carol: A gente tem um problema bem sério, e não é só no Brasil, é no mundo todo, em relação à pesquisa. Não existe uma especialização só em pesquisa. Você tem mestrados e doutorados na área de pesquisa, mas não existe uma especialização em pesquisa. Isso não é um privilégio do Brasil, fora do Brasil é mais ou menos parecido. O que dá para você fazer são pequenos cursos, por exemplo. Uma coisa que eu mesmo ando pensando em fazer é um curso de oratória. Como eu penso muito na hora de falar, sou um pouco confusa e acabo embaralhando a informação. A oratória te ajuda a limpar a fala, a ser mais claro na informação, a ter uma comunicação mais expressiva. Outra coisa que eu acho que vale a pena olhar é sobre escuta ativa. Procurar algumas informações sobre escuta ativa, dar uma lida nesse tipo de informação. Ler é crucial, tudo que cai na minha mão eu estou lendo. O tempo todo eu estou lendo, no celular, no computador, lendo em casa, lendo a vida. Tem alguns lugares interessantes de você pode procurar mais informação, que é o epicpeople.org. No Epic, é caro, mas se você se tornar membro, lá dentro eles fornecem conteúdo de pesquisa, conteúdo de como você faz determinadas pesquisas, de como você se importa em certas situações, para que serve pesquisa, como usar pesquisa de forma mais estratégicas, então você vai formando uma rede de informação. Eu já fiz curso de pesquisa na área de tendência, eu já fiz pesquisa para o IBGE, eu já fiz pesquisa para a Secretaria de Turismo. Na época a gente era orientado na universidade a fazer essas pesquisas para aprender a falar com as pessoas e para você saber que não adianta você ler as perguntas, tem pessoa que entende de um jeito e pessoa que entende de outro jeito. Então tem que ter flexibilidade de fazer perguntas de formas diferentes. Ultimamente ando com raiva de especialização. Eu não acho que se especializar é o caminho, ando achando que ampliar é o caminho. Como fazer uma ampliação de pesquisa.

Izabela: Interessante, muito interessante. Se você pudesse dar um conselho para quando você começou a carreira, qual seria?

Carol: Se você ainda é estudante e tem condições de fazer pesquisas de forma gratuitas, faça, porque a gente aprende muita coisa em pesquisa, Tem um aluno na pós que logo que entrou na pós fez um exercício que eu fiquei apaixonada pela atitude, pela iniciativa dele. Ele começou a fazer pesquisa no metrô. A primeira coisa que ele fez foi entender esse lugar dele de pesquisador e não de consumidor do metrô, aí ele começou a se problematizar do metrô como um pesquisador, e escrever Medium. Ele foi testando a informação, testando um pouco do que é estar em campo, do que é ser pesquisador. No módulo de pesquisa na pós-graduação, o primeiro final de semana que eu mando a galera para a rua, todo mundo fica super angustiado porque eu falo que a ideia é vocês irem para a Paulista não como um consumidor da Paulista mas como um pesquisador da Paulista. Só vai e olhe para a Paulista com esse interesse de tentar entender as coisas que estão acontecendo ali e porque aquela placa está daquele jeito, o que ela informa estando daquele jeito, o que ela não informa, o que ela deixa de informar quando ela não bota determinada informação. A partir do momento que você começa a entender esse olhar de pesquisador e não de consumidor, vira um vício. Aí sua vida está estragada e você nunca mais volta para trás.

Izabela: Fantástico. Carol, eu já tomei mais de uma hora do seu tempo nessa conversa ótima. Foi muito legal conversar com você, eu aprendi muito. Muito obrigada por compartilhar tanta coisa legal com a gente e ainda no último dia do ano.

Carol: Eeee!

Izabela: Agora 2018 pode acabar.


Izabela: Estamos chegando ao fim deste segundo episódio e espero que você tenha gostado!

Essa edição teve o apoio do TESTR, que é uma plataforma completa de teste de usabilidade ágil. O TESTR entrega todo o processo de teste com usuários de forma automatizada – incluindo recrutamento, execução, recompensa aos participantes e também relatório com os resultados. Isso tudo em uma média de 48 horas. Agora você não tem mais desculpa para dizer que não dá pra rodar pesquisa na sprint. E para você que acompanha o Movimento UX tem a vantagem de ganhar três participantes extras na contratação de qualquer plano. É só acessar aqui.

Obrigada por ouvir até aqui e até já!